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Pleurothallis grobyi Esse espaço é dedicado ao relato sobre plantas da nossa Mata Atlântica.
Buscaremos ser mais específicos com aquelas encontradas vegetando das Matas remanescentes de Santos.
Iniciaremos com um assunto pouco abordado por orquidófilos, aqueles cultivadores apaixonados por orquídeas que as preservam, cultivam e difundem.
Nossa planta escolhida é a Pleurothallis grobyi.
Pouco conhecidas e divulgadas, por isso nosso grande interesse nelas, são as Micro-orquídeas, sérias candidatas à extinção mesmo antes de serem classificadas pelos botânicos.
Poucas pessoas as conhecem no Brasil .
São plantas de dimensões milimétricas que vegetam costumeiramente sob galhos das florestas tropicais sob troncos onde existem outras epífitas.
Epífitas são plantas que não retiram nutrientes das árvores e sim dos detritos e água que escorrem pelos seus troncos.
As micro-orquídeas possuem uma estrutura morfológica, ou seja, forma de planta, distinta da maioria das orquídeas mais conhecidas.
Normalmente, numa Cattleya, por exemplo, temos três sépalas, três pétalas sendo que uma delas é um labelo, estrutura modificada, muito atraente para que os polinizadores as visitem onde fica a estrutura reprodutiva da planta, uma haste floral, um pseudobulbo, onde a planta armazena seus nutrientes. O pseudobulbo é uma porção que fica próxima do enraizamento da planta.
As micro-orquídeas têm sépalas fundidas e um labelo muito pouco expressivo.
Não possuem pseudobulbos.
Pleurothallis
Esse gênero de orquídeas, entenda-se que gênero é o primeiro nome dado a uma planta numa classificação botânica desde Linnaeus, o primeiro botânico a denominar as espécies vegetais com dois nomes.
O segundo nome é a espécie. Por exemplo, Pleurothallis é um gênero de Orchidaceaes, que é a família, e grobyi é o nome que identifica a espécie.
As Pleurothallis foram descritas por R. Brown em 1813.
Os estudiosos afirmam a existência de pelo menos mil espécies desse gênero no mundo especialmente nas florestas tropicais.
O Brasil é considerado um dos países de maior incidência desse gênero, segundo Pabst e Hoene.
Estima-se que existam pelo menos mais de cem espécies de Pleurothallis que foram classificadas na Mata Atlântica.
Essas plantas são muito exigentes enquanto a umidade, embora muitas espécies apresentem folhas bastante suculentas.
Podem estar presentes em florestas pluviais, em grandes altitudes e também em áreas de regeneração. Estão também presentes na natureza em áreas pantanosas e de várzeas.
Muitas das espécies ainda são desconhecidas pelos biólogos e suas classificações são bastante controversas.
Num desmatamento podem existir cerca de cinco mil micro-orquídeas num só tronco de árvore.
Cada uma das espécies vai requerer um trato cultural específico de acordo com sua origem e peculiaridades.
Pode –se dizer genericamente que há diferentes tipos de Pleurothallis floridas em toda época do ano.
Contudo há uma predominância nos meses de novembro até janeiro.
A Pleurothallis grobyi registrada inicialmente por Bateman e Lindl. em 1835, possui pétalas de 2 mm de largura.
Aprecia alta umidade e luz mediana, ventilação média. Vegeta nas matas nativas em grandes altitudes entre 1000 a 1300 metros.
Também pode ser encontrada no México, Guatemala, Costa Rica, Venezuela Colômbia, Equador, Peru.
Os cultivadores costumam colocá-las numa bandeja com pedriscos e um pouco de água no fundo e as mantém muito protegidas da luminosidade direta, preferencialmente cobertas com um telado escuro, permitindo a circulação de ar.
Alguns colecionadores colocam-nas também em tipos de aquários abertos. Estruturas de vidro fechadas dos lados e abertas na parte de cima com uma proteção.
Os vasos podem são preferencialmente os plásticos, pois retém mais água e o substrato, porção de suporte e nutrição da planta, o coquim que é um tipo de fibra de coco com acompanhamento de adubação adequada em periodicidades quinzenais.
Texto - Glória Aragão
Ikebana - A Arte do Arranjo Floral
As flores sempre exerceram fascínio sobre o homem.
Elas estão presentes na maioria das tradições conhecidas e nos mais distintos rituais religiosos ou profanos.
Oriundo das culturas orientais o ikebana, arranjo floral tradicional japonês é largamente difundido no Ocidente devido a delicadeza de suas formas, equilíbrio e harmonia que nos remetem ao descobrimento de nossa própria identidade.
A beleza das flores, as cores a estrutura, o desenho que se forma, compõe um ornamento que vai muito além do simples arranjo floral nos reconciliando com a natureza.
Na antiguidade os japoneses acreditavam que para se invocar os deuses era necessário demarcar um lugar específico com uma flor para recebê-los.
A complexidade em que está imbuído o ikebana advém dos antigos monastérios budistas da China no século VI.
A primeira escola de que se tem referência é a escola Ono, conhecida também como ikenobo.
Sua origem no Japão vem de um estudioso japonês chamado Semmu que visitou por vezes monastérios chineses e se impressionou com os ornamentos florais em oferenda aos deuses.
Ao voltar ao Japão, em Kyoto, torna-se guardião do monastério budista Rokkaku-dou e posteriormente se hospeda na casa chamada ikenobo, que quer dizer casa do lago.
Nesse período de retiro do monastério aperfeiçoa as técnicas aprendidas em suas viagens à China e inicia a sistematização das normas dos arranjos florais conhecidos hoje como ikebana.
Os elementos que estruturam o desenho de um ikebana, segundo estudiosos são a cor, forma, textura e a linha.
Os materiais utilizados para sua confecção são flores, folhas, cereais, ervas, ramos, sementes, frutas, cerâmica, dentre outros.
As cores são dadas através de elementos da natureza, a textura vem dos materiais a serem utilizados bem como a forma e a linha se expressa pelos ramos e pela composição.
São muitas as escolas de ikebana conhecidas. Dentre as mais representativas temos a Koryu, Ohara e Sogetsu.
A arte do Ikebana ficou por muitos séculos restrita a famílias nobres. Os arranjos eram exibidos em salas especiais onde os hóspedes mais ilustres eram alojados e através da contemplação da arte floral tinham seu espírito elevado e podiam alcançar harmonia interior.
Os segredos da confecção dos ikebanas ficaram muito bem guardados em claustros sendo revelados somente no século XX.
A escola Koryu é uma derivação da escola ikenobo e foi criada por Tokugawa.
Seu surgimento se deu entre 1603 e 1868. Caracteriza-se por composições do estilo Nageire. Este é resultado de um processo de grande espontaneidade. Também é conhecido como o estilo das flores lançadas.
A escola Ohara nos remete ao início do séc. XX e foi fundada por Ohara Unshin, responsável pela introdução do estilo Moribana que de forma genérica nos remete a idéia de paisagem.
Ohara Unshin inicia sua carreira como escultor e ao se iniciar na arte do ikebana, sente grandes restrições nos princípios da escola ikenobo para expressar sua arte.
Passa então a introduzir inovações, dentre elas o uso de materiais inusitados e espécies vegetais ocidentais.
Seu intuito era o de alcançar maior liberdade de expressão.
A escola Sogetsu foi criada no século XX, mais precisamente na década de trinta por artistas que questionaram as formas rígidas das escolas de ikebana tradicionais. Reivindicavam liberdade de expressão, formas livres distantes dos preceitos clássicos.
Esse movimento na arte do ikebana foi liderado por Sofu Teshigahara e é considerado como vanguarda até os dias de hoje.
De forma geral a arte floral do ikebana estabelece regras de harmonia entre os recipientes e as hastes florais que devem ser poucas realçando sua beleza intrínseca.
Em sua simbologia podemos dizer que as flores inteiramente desabrochadas e os galhos ou ramos secos representam o passado, as flores semi-desabrochadas ou folhas perfeitas simbolizam o presente e os botões representam o futuro.
Genericamente são três as linhas mestras que conduzem a realização do ikebana - o Céu a Terra e a Humanidade.
O ikebana é considerado a arte de realizar com o arranjo floral a arquitetura da paisagem.
Alguns dos estilos conhecidos são Rikka, Shoka, Nageire, Moribana, Zen ei ikebana, Kokusai.
Alguns dos estilos de ikebana conhecidos
Rikka
Em sua origem, criados para enfeitar os altares budistas, são compostos de flores eretas. Em geral os arranjos se elevam muito acima dos vasos e as extremidades das flores são bastante verticais simbolizando a comunicação com o céu. É uma clara expressão de devoção e fé.
Esse tipo de arranjo posteriormente serviu de adorno para templos e palácios até o fim do século XII.
Shoka
É um aperfeiçoamento do estilo Rikka.
Caracteriza-se pela predominância dos elementos triangulares.
Em cada um dos pontos o céu, o homem e a terra. Suas composições simulam tais elementos na natureza.
Outro traço que é bastante representativo é a singeleza.
Nageire
Tem como característica a estrutura triangular do estilo Rikka. Contudo a harmonia cromática é de livre expressão segundo seu criador.
É considerado um dos estilos naturalistas, quando os arranjos se tornam mais simples e mais acessíveis. As flores podem repousar nos vasos, os materiais florais usados não são mais restritos. As hastes das flores podem se cruzar. Os ramos podem ser cortados e até mesmo as flores.
É um dos estilos mais difundidos pelo mundo.
Moribana
É um estilo que mescla o tradicional Rikka ao Nageire acrescentando a sugestão de uma paisagem.
Existe uma intenção na reprodução de um jardim, ou de um cenário bucólico. As quantidades de flores e folhagem são mais abundantes.
O criador desse estilo é Ohara Ushin, demarcando um período de rompimento com os preceitos mais rígidos dessa arte.
Nesse estilo são estilizadas as estações do ano. A primavera é traduzida num arranjo vigoroso com curvas acentuadas. O verão exibe expansão. O outono é representado por um arranjo esparso e delgado. O inverno por conseguinte, expressa dormência e melancolia.
O uso das flores é condizente com as estações representadas.
Zen ei ikebana
Caracteriza-se pelo rompimento dos preceitos tradicionais.
Nesse estilo são aceitos materiais incomuns como vidro e plástico para os vasos.
As composições são livres. A mescla de espécies vegetais é permitida.
Não há limitações para a imaginação nesse estilo.
Kokusai
Estilo de ikebana criado por Noriko Ohno em 1955, visa o fazer da arte do ikebana como um fator de integração entre diferentes povos.
O estilo se baseia nos preceitos zen ei ikebana de liberdade de suportes e articulações das espécies vegetais.
As composições são independentes dos preceitos tradicionais.
A missão de Noriko Ohno é a difusão da amizade através das flores.
Percorreu o mundo todo integrando pessoas das mais diversas culturas através dos arranjos florais. Utilizou-se de espécies locais para fazer seus arranjos.
Sempre faz demonstrações de sua arte publicamente.
Madame Ohno esteve mais recentemente no Brasil em 1991 quando recebeu o título de Cidadã Honorária da Cidade de São Paulo.
O Ikebana no Brasil
Os imigrantes japoneses no Brasil, ávidos por cultivar a terra e torná-la produtiva com seus conhecimentos, trouxeram consigo sua riquíssima cultura repleta de significados e símbolos. Os arranjos florais fazem parte de seus muitos costumes.
A cada estação os ornamentos de flores estavam presentes, bem como em cerimônias e festividades.
Por volta de 1920 Yoshitaro Fugisawa iniciou aulas de ikebana à consulesa do Japão e para pessoas ligadas ao Corpo diplomático.
Esse grupo inicialmente bastante restrito iniciou a difusão do ikebana.
Em 1935 Ei Fugiwara iniciou o ensino de ikebana aos imigrantes japoneses da colônia de Itaquera.
Em 1954, ano da comemoração do IV Centenário da Cidade de São Paulo, Madame Noriko Ohno veio de Tóquio para organizar a primeira exposição de Ikebana no Brasil.
Ainda nos anos cinqüenta outras exposições foram realizadas onde se destacaram diversidades de estilos conjugando as características e preceitos japoneses às espécies florais tropicais brasileiras.
Com a criação da Associação de Ikebana do Brasil o ensino de ikebana adquiriu status acadêmico podendo ser difundido a pessoas descendentes ou não de japoneses.
Como disse Madame Noriko Ohno:
“Não há fronteiras entre os corações para amar as flores e nem entre as artes dos arranjos florais através do mundo”.
Texto e pesquisa – Glória Aragão
As Orquídeas de Buenos Aires
...”Caminante no hay camino, se hace el camino al andar”...
Antônio Machado
...”Caminhante não há caminho, o caminho se faz ao andar”...
Antônio Machado
Andando despretensiosamente pelas ruas de Buenos Aires, meus pés não se cansavam tamanho o apelo visual e dos sentidos que me comoviam.
As estátuas vivas, o bandoneón*, o tango que percorre as veias desse povo caloroso e afetivo.
Logo os portenhos vão se aproximando com o misto de curiosidade e admiração.
Por que trocou a praia para ver o nosso verão cinza?
Perguntou a vendedora de títeres.
Percorrer San Telmo no verão é esplêndido.
Quanta luz naqueles cristais brilhando nas ruas de calçamento antigo. Quanta história que vem dos objetos muitas vezes insólitos quanto o gato de porcelana repousando sobre um veludo bordô na mesa.
Quanta magia resgata a arquitetura preservada da época da colonização.
Gardel está vivo por toda parte.
A cada três passos me deparo com uma livraria. Os segmentos são tão amplos que os vendedores são grandes especialistas de setor. E não é só no Ateneu, a maior e mais bela delas.
O Teatro Colón em sua majestosa arquitetura apresenta infinitas formas que junto à melodia da sinfônica dão mais calor àquela noite.
Continuando o caminho, mal paro para repousar no “Viejo Bazar”, e duas pessoas se aproximam. Estranhei aquele fato.
Os olhares se entrelaçam assim como as mãos e surge uma dança de sedução bem ali à minha frente.
Mais um tango, mais uma melodia, outra história de amor.
Buenos Aires é mais bela para os apaixonados.
Caminhar sozinho também pode ser uma experiência muito inspiradora.
Mas nem só de poesia encanta a hermosa* Buenos Aires.
Falamos sempre de orquídeas. E lá estão elas, também sedutoras.
Fui convidado por três orquidófilos amigos para uma “degustação” de orquídeas.
Foram enfáticos ao afirmar: Embora não sejam plantas que se encontram em imensa abundância como no Brasil, Colômbia, Equador, contamos ao menos com umas 260 espécies das quais pelo menos 23 são endêmicas.
O grande habitat para elas em nosso país compreende desde a região de Misiones até os rios Paraná e Uruguai até Punta Lara, Tucumán, Bosques Chaqueños.
As plantas mais cultivadas daqui são Capanemia, Maxillaria, Oncidium, Epidendrum, Sophronitis e Leptotes.
Há ainda em nosso país plantas terrestres que vegetam desde os pampas da Patagônia passando pelas Serras como o Cyclopogon, Chloraea dentre outras.
Aqui sua subsistência se vê ameaçada pelas intensas queimadas dos pastos com finalidade agrícola, urbanização crescente e o comércio de plantas extraídas diretamente da natureza.
Nossos amigos enfatizaram a necessidade em se adquirir plantas de viveiristas idôneos.
Fiquei ao mesmo tempo surpreso pelas semelhanças com o Brasil e também perplexo por sentir que na Argentina também há formas tão drásticas de relacionamento com a natureza.
Meus amigos me mostraram um bela Laelia purpurata que segundo eles vai muito bem pelas semelhanças com o clima de Santa Catarina, uma outra planta brasileira, uma Laelia flava em perfeitas condições de adaptação e climatização.
Já o Cymbidium, mais comum para nós não me causou grande impacto.
Os Paphios estavam esplêndidos, floriram no inverno e voltavam a florir mesmo nessa época do ano.
Os Epidendrum cultivados em vasos cerâmicos com turfa e areia de substrato em partes iguais num espaço bastante iluminado.
Imensa a touceira de Dendrobium nobile que estava naquela árvore mais ao fundo do jardim. Muito impressionante a qualidade de cultivo dos amigos portenhos.
Fiquei sem a foto da mais encantadora, parece ironia do destino.
Uma Chloraea magallanica totalmente azul. Azul mesmo. Linda!
Ela é endêmica da Argentina.
Essa foto por enquanto ficou na memória.
Prometemos publicar depois da próxima viagem.
Voltamos por La Boca apreciando o colorido encantador das casas de madeira. E porque não falar em futebol?
Melhor deixar de lado o assunto, porque, como no caso das orquídeas, sempre as nossas é que são as melhores....
Texto – Glória Aragão
*Bandoneón – tipo de sanfona *Hermosa-bela |